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“Sentir-se parte de um grupo é muito importante para o jovem de comunidade”

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Geógrafo Mário Simão Pires. Crédito: Ratão Diniz

Geógrafo Mário Simão Pires. Crédito: Ratão Diniz

O geógrafo Mário Pires Simão é conhecedor da realidade que envolve as favelas e seus moradores. Trabalha como coordenador do Observatório de Favelas, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, e fez parte da equipe do Rotas de Fuga, uma ampla pesquisa que acompanhou jovens em risco social envolvidos em atividades ilícitas. Nesta entrevista, ele tenta explicar a força do tráfico de drogas nas comunidades, a necessidade da criação de alternativas e os estereótipos que envolvem os moradores de favelas.

 

 

 

 

Fale um pouco sobre os trabalhos realizados pelo Observatório de Favelas a partir dos fenômenos que envolvem o processo de favelização no Estado do Rio de Janeiro.

No Observatório de Favelas desenvolvemos trabalhos que procuram, sobretudo, superar determinados estereótipos clássicos, tentando produzir novos olhares sobre as favelas. Um dos projetos que a gente desenvolveu tem um eixo muito rico para gente no campo dos Direitos Humanos. Em 2001, tivemos um diagnóstico sobre adolescentes e jovens envolvidos com o tráfico de drogas. Já em 2004, iniciamos um projeto mais longo – de três anos – com a Organização Internacional do Trabalho, chamado Rotas de Fuga. Este foi um trabalho de prevenção e criação de alternativas baseado em um estudo longitudinal de 20 meses com 230 jovens envolvidos com as atividades ilícitas, em especial o tráfico de drogas. Realizamos um estudo sistemático, aplicando questionários e acompanhando a rotina deles.

Foi fácil convencê-los a serem acompanhados em suas rotinas?

Nós contávamos com um articulador, que era uma pessoa que conhecia as pessoas envolvidas, tinha acesso às bocas de fumo e bom relacionamento com os que trabalhavam nestas atividades. É claro que para o sucesso da pesquisa precisávamos de alguém da comunidade, que vivia e entendia o problema e a situação de vida daqueles envolvidos.

O que a pesquisa diagnosticou sobre esses jovens?

A partir da pesquisa, a gente queria descobrir quais eram as práticas desses jovens: a experiência deles no tráfico, a relação deles com a comunidade, etc. Infelizmente, nos cinco primeiros meses, morreram cerca de 40. É uma estatística horrorosa. Enfim, continuamos o trabalho e a grande maioria, após o diálogo com a gente, buscou alternativas para sair do tráfico. Muitos elementos interferiram nesse processo de saída e creio que ajudamos a alguns, mas acho que boa parte procura por si próprio as alternativas que considera razoável.

O que leva os jovens de comunidades a entrarem no tráfico?

No geral, a entrada no tráfico está vinculada ao desejo de consumir. No Rotas de Fuga, percebemos que 43%dos jovens envolvidos querem comprar roupas com o dinheiro que ganham no tráfico. A sociedade de consumo aprisiona as pessoas na lógica de que obter coisas é fundamental para se sentir bem. Sendo assim, o jovem da periferia, de origem popular, quer participar desta lógica do consumo, ele também quer se sentir bem. É fato que a entrada para o tráfico também tem ligação com o consumo. Acho que o importante é rediscutirmos essa maneira de ver a sociedade.

A entrada no tráfico está ligada, sobretudo, ao fator remuneração?

Organizamos uma tabela que aponta os fatores que os mantém no tráfico. Em primeiro lugar, por dinheiro. Depois, o desejo de ajudar a família, o prestígio, a sensação de poder e a adrenalina.

E o fato de se sentirem pertencentes a um grupo também favorece a entrada dos jovens no tráfico?

Os jovens envolvidos no tráfico pertencem a uma rede de relações. A sensação de prestígio e de poder os fazem sentir pertencentes a esta rede. A música, a maneira de se vestir e de se expressar, as simbologias utilizadas, todas são questões que congregam identidade a esses grupos. Com isso, os jovens dizem “eu pertenço a esse grupo e me utilizo de tais práticas para me identificar como membro dele”. Sentir-se parte de um grupo é muito importante para o jovem nesse momento de transição para a vida adulta.

De que forma vocês trabalham as complexidades que permeiam a vida deste jovem que se envolve em atividades ilícitas?

Nós utilizamos duas chaves de análise para a questão da juventude nessas comunidades que são as questões da presentificação e da particularização da existência desses jovens. No geral, esses jovens têm uma relação tumultuada com a escola, as famílias têm menos condições de ampliar possibilidades culturais e de lazer, recaindo sobre os próprios jovens a missão de elaborar estratégias para a própria sobrevivência. Nesta realidade, os jovens acabam ficando presos ao tempo de agora. A escola, que é um investimento de longo prazo, só trará resultados daqui a 12 ou 15 anos. Não é suficiente para ele, que quer a felicidade naquele momento. É isso que chamamos de presentificação, ou seja, a compressão do tempo. O tempo é agora. Em relação ao tráfico, é o prestígio, a possibilidade de frequentar determinados locais da comunidade que antes não podia, conquistar mulheres que antes não conseguia, a possibilidade de rápida ascensão, de poder consumir o que antes não lhe era possível e de responder com imediatismo a seus desejos.

Mas essas são questões que envolvem jovens de todas as classes sociais…

Isso ocorre na sociedade como um todo, mas essa situação se torna mais aguda dentro da favela, pois a possibilidade de ampliar o leque de alternativas desses jovens é muito menor. Eles acabam não conseguindo enxergar um projeto de vida. Ficam ligados às questões imediatas. Além da compressão do tempo, no caso dos jovens de comunidades, há a compressão do espaço. A circularidade desses jovens é muito baixa. Muitos quase não saem de dentro das suas comunidades. O mundo, neste caso, é o aqui. A existência deles acaba resumida sempre àquele lugar. É a particularização da existência. Eles têm aquela realidade como aquilo que há de melhor. Todas as referências de vida estão dentro daquele espaço. As experiências de relações humanas se dão somente naquele lugar. Isso age nos jovens negativamente, no sentido de não permitir se relacionar com o diferente. Em última análise a dificuldade de lidar com as diferenças pode gerar práticas de intolerância e desrespeito ao que se apresenta como diferente para estes jovens.

De que forma está estruturada a rede do tráfico de drogas nas favelas?

O tráfico não é só o ato do varejo, da compra e venda de drogas. Ele está inserido em outras atividades na comunidade. Em certas comunidades, ele exerce o papel de mediador de conflitos, em outras ele está envolvido em outras atividades econômicas – como segurança, transporte coletivo, distribuição de gás, internet e TV a cabo. Muitas vezes ele determina a rotina da comunidade, promovendo os eventos, etc. De alguma maneira, eles vão construindo estratégias de controle sobre o território. Eles estabelecem as regras e definem, de certo modo, as relações sociais naquele ambiente.

E aqueles jovens que não se envolvem diretamente com o tráfico, mas que de certa forma participam desta rede?

Existem graus diferentes de envolvimento com o tráfico. Tem aqueles que são amigos de pessoas do tráfico, uns que participam das festas, outros que levam uma quentinha para os traficantes, além dos envolvidos diretamente. Estes últimos também merecem uma classificação especial, pois são diversos os cargos que ocupam dentro da hierarquia do tráfico. Essa cadeia engloba olheiro, avião, endolador, soldado, gerentes, vapor. Costumamos demonizar todos os envolvidos, mas muitos não são destemidos, tampouco possuem habilidade para utilizar armas. Estão em busca de dinheiro. Encontramos ainda jovens de 17 ou 18 anos, que estão no tráfico há mais de três anos, sobreviveram a todos os enfrentamentos e, geralmente, encontram-se desmotivados com a atividade e gostariam de sair.

E eles conseguem sair?

Para ele sair desta, ele tem que ser inserido em outra rede. Tirá-lo de um círculo vicioso e colocá-lo em um círculo virtuoso, onde as propostas e as atividades surjam para ampliar as possibilidades deles.

Quem ajuda esse jovem a largar o tráfico?

Percebemos que o maior motivador para a saída do tráfico é a família, em especial a figura feminina, seja a mãe, a mulher, a filha, a namorada.

O objetivo de vocês era procurar formas de diminuir a incidência de jovens no tráfico de drogas?

Constantemente, nos deparamos com termos que não queríamos que fossem usados, como “retirada dos jovens do tráfico”. A gente não tira ninguém de lugar nenhum, apenas apresentar alternativas. Não podemos ser prepotentes a ponto de achar que um programa – por mais elaborado que seja – se torne capaz de “retirar” o jovem do tráfico de drogas.

Quais conclusões podem ser tiradas para se trabalhar o jovem na iminência de entrar no tráfico de drogas?

Os jovens devem ser compreendidos pela sua totalidade, ou seja, temos que levar em consideração as redes sociais que eles estão inseridos e todas as dimensões de sua vida – afetiva, familiar e social. Muitas vezes, os programas sociais se preocupam apenas com uma área e não conseguem perceber o jovem em sua totalidade. A gente não pode deixar de considerar o indivíduo num conjunto maior. Pensando dentro da rede, temos então que analisar o tempo de inserção, o nível de envolvimento, a trajetória na rede e as motivações para sair. Para sustentar a saída desses jovens do tráfico tem que haver um plano de ações variadas de acordo com cada situação. Não tem receita de bolo. Embora um programa social tenha linha de assistência aos jovens e sua família, a lógica de ação deve seguir o caráter não-assistencial. Ou seja, parte do compromisso do jovem e de suas ações dentro do programa para que o sucesso seja alcançado. São responsabilidades compartilhadas. É, na verdade, um pacto entre as partes.

Saindo um pouco da pesquisa do Rotas de Fuga e passando pelo trabalho mais amplo do Observatório de Favelas, encontramos a favela sempre à margem das políticas públicas elaboradas para as cidades. De que forma isso contribuiu para a situação de descaso atual?

Historicamente, pode-se dizer que as favelas já surgem como um mal nas cidades. Temos pouco mais de um século de favelas. Na cidade do Rio de Janeiro, a primeira favela foi a da Providência, chamada na época de Morro da Favela, no fim do século XIX. Era comum encontrarmos casarões nobres dividindo o mesmo espaço com cortiços que abrigavam diversas famílias. Podemos dizer que não havia separação de usos e classes. A cidade vai se transformando a partir de uma série de intervenções públicas, e o discurso que predominava era o da modernidade a partir da urbanização baseada nos padrões europeus, ou seja, romper com uma cidade colonial e inaugurar uma cidade moderna aos modelos europeus. Desde então, essa cidade em transformação não designava, em seu planejamento, espaços para discutir o tipo de moradia que se encontrava, por exemplo, no Morro da Favela. Assim, a favela já surge como um problema a ser sanado, um câncer na cidade.

E, como câncer, deveria ser extirpado?

Não se vê a favela e seus moradores como parte da cidade, assim como não se vê a cidade como a expressão de diferentes reunidos. A favela sempre foi vista como um lugar passível de intervenção. A cidade é um lugar que respeita certo padrão urbanístico, reunindo um conjunto de práticas sociais que são aceitas, onde certo padrão de vida tenta ser difundido. Os moradores da favela, fora desse padrão aceitável, não são considerados cidadãos por excelência.

Os estereótipos sobre a favela e seus moradores começam a surgir a partir desta condição de estar fora dos padrões de cidade?

O que surge em relação à favela é um conjunto de estereótipos: o lugar da ausência, da pobreza e da violência. Em minha tese de mestrado, recorri a matérias de jornais antigos que tratavam as favelas. Em sua grande maioria, os estereótipos dominavam o noticiário. Isto acontece até hoje. O mesmo ocorre em relação aos moradores das favelas, como se eles não fossem capazes de desenvolver uma relação saudável com a cidade. Quando buscamos a definição de favela, sempre encontramos que ela não é alguma coisa. O IBGE, por exemplo, trabalha com a seguinte definição: aglomerado subnormal, ou seja, abaixo de um padrão considerado como normalidade.

O olhar que observa a favela de fora é muito deturpado?

Um grave erro recorrente sobre a favela é tratá-la como sendo um fenômeno homogêneo, quando deveria ser visto como plural. Quem tem experiência de trabalho em comunidades, sabe que não estamos lidando com um fenômeno homogêneo. A periferia é diversa por demais.

A expressão “comunidade carente” é um termo que surge desta má interpretação sobre as favelas?

Essa expressão ganhou espaço na mídia e no imaginário coletivo, e remete à ideia de ausência, da não-cidade, do lugar que se opõe a cidade. É um discurso de caráter assistencialista que vê os moradores como vítimas de um sistema excludente e que merecem alguma misericórida das autoridades públicas e da sociedade em geral.

E o discurso oficial das autoridades sobre a favela?

Temos diferentes discursos sobre a favela. Já escutamos o discurso da reurbanização – que é o mais atual, vejam o exemplo do “Favela Bairro”; temos o discurso ambientalista, que trata dos impactos que a expansão das construções nessas comunidades causam ao meio-ambiente, em áreas verdes que deveriam ser protegidas e nas franjas dos rios. Todos eles apresentam a favela como um problema.

O termo favela engloba que tipos de moradias?

No Observatório, a gente trabalha com o conceito de espaços populares, que englobam favelas, loteamentos, conjuntos habitacionais. Na Maré, que é o maior conjunto de favelas da cidade do Rio de Janeiro, a gente tem favela, conjunto habitacional e comunidades que são marcadas pela autoconstrução e outras que são fruto da intervenção do Estado. A Nova Holanda, por exemplo, é um conjunto habitacional construído pelo governo. Na Vila do João, a mesma coisa. Elas sofreram o processo de popularização, digamos assim, e estão dentro do contexto bairro-Maré. Por isso, preferimos trabalhar com o conceito de espaços populares porque conseguimos aglutinar essas outras formas de habitação.

O que se pode dizer sobre os investimentos em comunidades quando relacionado com os que são feitos nas cidades?

Costumamos analisar bastante o tipo de investimentos feito pelo Poder Público nas favelas. Comparamos o que se investe na periferia com o que se investe no restante da cidade. No Rio de Janeiro, nenhuma favela jamais teve incentivo para construir um cinema ou um teatro. Nenhuma favela tem espaço cultural como na zona Sul da cidade. Os investimentos públicos são desiguais. Faz-se uma Cidade da Música milionária na Barra da Tijuca. Concentra tudo em um ou dois lugares. Com isso, mantém-se o estigma de favela, pobreza e marginalidade. Podemos dizer que há um déficit de investimentos nas favelas e periferias.

E no quesito segurança?

Se analisarmos o quantitativo de policiais na Zona Sul e compará-lo com as comunidades pobres, o número é muito maior no primeiro. Em 2004, o número de homicídios na região do Leme e Copacabana foi de seis. Em Irajá, chegou a 600. É uma distribuição de efetivo policial sem sentido. As estratégias de enfrentamento da violência na cidade dita formal são de determinado caráter, já nas periferias da cidade adotam-se estratégias distintas onde geralmente o cidadão é visto como conivente com as ações ilícitas, ou como se tivesse status de cidadão reduzido, portanto as incursões policiais nas favelas geralmente desrespeitam a dignidade e a rotina de seus moradores.

É nítido o crescimento de favelas ao longo dos anos. O que dizem os números atuais?

No ano 2000, o IBGE indicava a existência de quase quatro mil favelas no país, sendo que 800 só no Estado do Rio de Janeiro e 516 na cidade. Em estudo mais recente, realizado pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), o número de favelas no Estado do Rio chegou a 968.

É possível traçar o perfil do morador de favelas a partir do local em que ele vive?

O território não é determinante, mas é um condicionante de extrema importância. Na geografia, território é definido como o espaço delimitado, onde determinado grupo exerce controle, estabelece as normas e define as regras. O que a gente está tratando aqui tem muito da dimensão política da territorialidade. É o exercício da força, o controle sobre o movimento de ir e vir das pessoas. Existe, também, a dimensão cultural dessa territorialidade. A palavra território também tem muito a ver com as identidades sociais que os moradores vão construindo. A pessoa nasce em determinada comunidade e vai adquirindo hábitos e costumes dessa comunidade. Ela passa a olhar o mundo a partir de sua experiência em sua comunidade. O território, então, contribui para a criação de identidades sociais entre os moradores. Eu quero saber o quanto o território é condicionante para entender as práticas dos moradores nas periferias.

Quanto o morador é estigmatizado por viver em favelas?

O morador, no geral, é visto como uma vítima do sistema. Ele é, recorrentemente, um pobre coitado que mora numa comunidade carente, como se ele fosse incapaz de gerar oportunidades para sua vida, como se não fosse sujeito de sua própria história.

E a relação entre morador e traficantes?

Existe uma linha de raciocínio que vê o morador de favela sendo conivente com a violência ao seu redor, com os poderes locais. Ora se vê o morador como uma vítima, ora como um potencial criminoso. Imagina-se que se o morador não é envolvido com o tráfico, ele é, no mínimo, conivente com ele, protegendo as atividades ilícitas. No decorrer da existência das comunidades, os moradores desenvolveram uma relação de convivência – e não conivência – sabendo jogar dentro das regras do jogo e, a partir disso, ele busca sua forma de sobreviver a essa lógica, e isso se deve pela ausência do Estado que há muito abandonou as comunidades, largando-as à própria sorte. O morador, então, desenvolve mecanismos para se relacionar com os grupos que ocupam o poder na comunidade.

O que fazer para diminuir as assimetrias entre favela e asfalto?

Alguns caminhos são possíveis para as questões da favela, da realidade dos moradores, das fronteiras imaginárias. Primeiro, o desenvolvimento de ações sob a criação dos estereótipos, buscando uma ruptura da lógica de cidade partida. Para nós, a cidade é una, mas é diversa, plural, o local que possibilita o encontro das diferenças. Temos que acabar com essa lógica que cidade é uma coisa e favela é outra, que é pobre de um lado e rico do outro. Há muito mais comunicação entre a favela e o dito asfalto do que a gente imagina. Em segundo lugar, realizar ações integradoras, que promovam o encontro das diferenças e a apropriação da cidade por todos os seus habitantes. E, por fim, reconhecer o morador da favela como um sujeito de direitos e ator político fundamental para buscar uma cidade mais justa, fraterna e igualitária.

Escrito por Eduardo Pacheco

17/04/2009 em 12:46 pm

Publicado em SOCIAL

Ricardo Canese deve assumir negociações de Itaipu

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Ricardo Canese

Ricardo Canese

 

O engenheiro Ricardo Canese é especialista em hidroeletricidade e uma das principais lideranças do Movimento Popular Tekojoja, que ajudou Fernando Lugo a se eleger como presidente do Paraguai e encerrar 61 anos de centralismo político do Partido Colorado. Canese é tido como uma das pessoas mais bem preparadas para discutir com o Brasil a questão de Itaipu. Na entrevista abaixo ele fala sobre política, Mercosul e integração energética.

 

 

 

 

 

Setores progressistas da sociedade latino-americana comemoraram a vitória de Fernando Lugo para a presidência do Paraguai. Dentro de qual contexto se insere essa vitória?

É uma mudança depois de mais de 60 anos de governos autoritários, corruptos e excessivamente conservadores, passando pelas mãos de oligarquias conservadoras, como também por uma ditadura que durou 34 anos. A Aliança Patriótica para a Mudança (coligação de partidos e movimentos sociais que apóiam Fernando Lugo), conseguiu importantes vitórias, no entanto há muito o que se fazer para inverter o modelo político sustentado pelas oligarquias paraguaias. Mas, o dia 20 de abril pode, sim, ser considerado uma virada histórica, principalmente para os partidos políticos e movimentos da esquerda paraguaia. Foi importante para presenciarmos o fim de um modelo oligárquico que não se sustenta mais, que não possui aprovação popular e que não garante melhorias para as pessoas. O mais importante é que Fernando Lugo é um líder muito querido no país e, neste momento, ele está aglutinando forças junto com a sociedade para realizar as mudanças necessárias para o país.

O Partido Colorado tem feito algum tipo de manobra para atrapalhar o bom clima do país? Que tipos de dificuldades o novo governo pode encontrar para governar?

Não nego que existam dificuldades, mas pode-se dizer que já passamos da fase de maior preocupação, que foi durante as eleições, e agora estamos vivendo um período de mais tranqüilidade no país. No momento, os movimentos populares e os setores democráticos estão em alta e o Partido Colorado está bastante dividido. Isso, de certa forma, impede que este partido dê demonstrações de força. Nós acreditamos que seguiremos o caminho correto para realizar as mudanças sociais que tanto precisamos. Estamos muito bem alinhados com os movimentos sociais, os sindicatos e partidos de esquerda, e confiantes nas políticas de cunho social que pretendem abraçar a todos os movimentos populares.

Com a retomada de governos progressistas na América do Sul, fica impossível não estabelecer uma relação entre Lugo e Evo Morales ou Hugo Chávez. Você vê mais semelhanças ou mais diferenças entre essas lideranças políticas?

Eu vejo mais diferença. O governo de Fernando Lugo será mais parecido com o governo Lula, no Brasil, ou de Tabaré Vasquez, no Uruguai, por causa da composição das forças políticas que governarão com ele. Nem todos são partidos de esquerda. O Partido Liberal, por exemplo, está coligado com o atual governo. Para ter governabilidade, o governo Fernando Lugo fez alianças com distintos setores que não são de esquerda, então, dificilmente, vamos conseguir avançar com um programa muito radical, porque não temos a maioria no Congresso. Mas, garantimos que será um governo democrático, que vai institucionalizar o país, vai combater a corrupção e, sobretudo, ter uma sensibilidade social que permitirá aos movimentos sociais crescerem para, então, possibilitar uma mudança mais profunda que não sairá do seio de um partido de esquerda, mas das demandas desses movimentos. Sem dúvida será um governo de identidade nacional com orientação social.

Em relação ao Mercosul, Lugo levantou a bandeira de um Paraguai mais atuante. De que forma o novo governo conseguirá elevar o país à igualdade com demais membros do bloco?

A igualdade, neste caso, seria algo parecido com respeito e reconhecimento de que está nascendo um governo digno. Claro que o Paraguai, por ser um país menor, que produz menos e tem menos população, não seria, ainda, capaz de competir economicamente com esses países. Mas, a Europa nos dá bons exemplos de políticas de diminuição das assimetrias entre os países da União Européia, e o Mercosul deve desenvolver mecanismos que também retrocedam as disparidades. Se não for assim, o Mercosul continuará tendo muita resistência por parte dos paraguaios. Os últimos governos não conduziram o país ao patamar que deveria alcançar dentro do bloco. São três as nossas dificuldades: somos o menor país, não temos uma saída para o mar e possuímos um índice de pobreza enorme. Somos mais parecidos com o nordeste brasileiro do que com o Uruguai, que possui uma renda per capita bem maior do que a nossa. No Mercosul, temos que começar a resolver essas assimetrias, que não são somente as diferenças entre nações, mas as disparidades dentro de cada país. A questão das dimensões de cada país também precisa ser analisada e a falta de uma saída pro mar, questão que compartilhamos com a Bolívia, se configura em um grande entrave para o nosso desenvolvimento. A questão da soberania energética é crucial para o Paraguai.

No Brasil, a grande mídia coloca o tema da hidrelétrica de Itaipu como um objeto de disputa entre os governos dos dois países. Como essa questão está sendo tratada no Paraguai e de que forma esse debate está sendo trazido para o Brasil?

Durante um Fórum, em São Paulo, que reuniu partidos políticos de esquerda e movimentos sociais, fomos amplamente apoiados. São diversas entidades demonstrando solidariedade com a causa paraguaia. A partir de 15 de agosto, data da posse de Lugo, iniciaremos conversas oficiais entre governos. Queremos tratar deste assunto com o máximo de cautela que a questão merece, não queremos que a questão de Itaipu se torne um motivo de discórdia entre os dois países ou se configure em um escândalo com repercussão internacional. No dia 1º de abril, um dia antes das eleições no Paraguai, nós fomos recebidos pelo presidente Lula, que foi bastante compreensivo com o tema ao dizer que trataríamos a questão de Itaipu com grande respeito e prioridade. Ele mesmo disse, na ocasião, que não pretende ver o Brasil crescendo às custas da pobreza de seus vizinhos. Temos que buscar um trato que seja capaz de superar um tratado que remete às ditaduras militares. Nós acreditamos em uma integração energética dentro do continente, somos os únicos com excedente de energia elétrica e podemos crescer com isso. O Chile, por exemplo, precisa de energia elétrica. Temos que tomar como exemplo a Bolívia, que possui excedente de gás e tem implantado medidas de valorização do seu potencial gasifico. Com um bom manejo entre os países, podemos sair todos fortalecidos com essa integração, não só o Paraguai. Eu te dou um exemplo: no ano passado, a Argentina perdeu quatro bilhões de dólares pela falta de energia elétrica. Com isso, tiveram que parar a indústria, ocasionando grandes perdas. Se tivéssemos uma interconexão elétrica, a Argentina poderia ter evitado uma crise neste sentido. Então, temos que criar uma proposta onde todos ganhem. Assim, poderemos obter o reconhecimento de que também estamos contribuindo para reduzir os custos energéticos das nações vizinhas. Querer alcançar a nossa soberania energética não é um desejo egoísta do Paraguai, mas uma questão de necessidade e sobrevivência.

O senhor não gostou do nome escolhido pelo novo governo para a direção da hidrelétrica de Itaipu. O que lhe incomoda com esta decisão?

Não foi uma objeção só minha, mas de todo o Movimento Popular Tekojoja, dos sindicatos elétricos, das frentes sociais populares e partidos de esquerda. Nós criticamos a nomeação de uma pessoa que não tem nenhuma experiência no campo energético, que nunca mostrou interesse com esse tema. Temos muitos outros nomes de pessoas comprometidas com questões energéticas, que dedicaram anos de suas vidas ao tema. Como companheiros que somos de Fernando Lugo, fizemos esta crítica. Mas foi uma decisão soberana do governo paraguaio, nós já felicitamos a Carlos Mateo Balmelli e estamos prontos para ajudar. Não o critico por ele ser membro do Partido Liberal e eu representar outro partido, tanto que falo abertamente que existem pessoas extremamente competentes neste partido para tratar de questões energéticas. Mas, estou certo que a opção por esse nome se deu mais pela sua importância como dirigente no seio do Partido Liberal do que pela sua experiência no campo energético.

Sabe-se que muitos setores da sociedade paraguaia querem tê-lo como membro desse novo governo. Existe essa possibilidade?

Eu fui eleito para o Parlamento do Mercosul, com maior número de votos dentre os candidatos de esquerda do Paraguai. Sei que nesta função poderei ajudar o governo Lugo dentro do bloco. Nesse sentido, se Fernando Lugo me convidasse para assumir um cargo em seu governo, isto implicaria em renunciar a meu cargo de parlamentar no Mercosul. Mas, o presidente eleito me ofereceu coordenar uma equipe de renegociação de Itaipu e acho bastante razoável, pois não precisarei renunciar ao meu cargo atual dentro do bloco regional e poderei contribuir com a minha experiência para a questão de Itaipu.

Escrito por Eduardo Pacheco

17/04/2009 em 11:52 am

Publicado em POLÍTICA

“A gente quer substituir o pensamento único pela consciência universal”

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O poeta, jornalista e ativista dos direitos humanos Bruno Cattoni nasceu no Rio de Janeiro, em 1957, e carrega consigo a angústia daqueles que não navegam na onda de conformismo dos nossos dias. Sonhador, busca um mundo mais justo e solidário; realista, sabe que o caminho para alcança-lo é árduo. Experiente, traz consigo a bagagem de décadas de jornalismo para transformar seu sonho em realidade. Acompanhe, abaixo, a entrevista com o idealizador da Rede Mundial de Comunicação Alternativa, um grandioso projeto de comunicação que promete levar cidadania e interação humana sem interesses econômicos, calcado no ideal de mundo livre.

 

Explique, em linhas gerais, o projeto da Rede Mundial de Comunicação Alternativa.

Quando a gente vai discutir a Rede Mundial de Comunicação Alternativa ou qualquer outro mecanismo que entre numa linha de pensamento mais arrojada, de combate aos grandes oligopólios de comunicação, de certa maneira, não só os empresários se arrepiam com isso, mas os próprios acadêmicos, que estão estudando isso há muito tempo, de fazer uma globalização contra-hegemônica através da globalização, e acham que é simplista demais o que eu estou propondo. Porque, se os comunicólogos, os professores e os pesquisadores estão há anos, no mundo inteiro, pesquisando isso, como é que chega um jornalista e tenta implantar alguma coisa que eles nem imaginam…

Mas o fato é que eu consegui mostrar no Fórum Social Mundial (FSM) que é possível, pelo menos, o mecanismo de ida e vinda da informação – a interação – e, depois disso, basta acrescentar outras ferramentas para amplificar esse processo.

 

 

Na prática, como se dá esse processo?

Existe uma unidade móvel de jornalismo. É um ônibus que você pode alugar com todos os equipamentos de televisão, ele faz o processo de integração com o sinal do satélite e a interface com a Internet para que o sinal que ele está recebendo e emitindo também vá para o mundo virtual. Eu fiz esse orçamento, ficou caro demais. Esse ônibus pode existir em sete cidades. Um em cada costa dos Estados Unidos, dois na Europa, dois na América Latina, um na Índia e um na África do Sul Assim, a gente resolve os centros da Rede, que serão sete cidades. São essas cidades que vão custear os gastos com o ônibus: os próprios governos, a sociedade civil ou as empresas.

 

 

A Rede Mundial já foi testada?

A gente usou no FSM a tecnologia de envio e recepção de áudio e vídeo. Fizemos uma estação âncora daqui de TV e web e conversamos com 42 cidades. Ou seja, todas essas cidades conversaram entre si durante o dia de ação do FSM. Cada uma enviava imagens para nós e a gente repassava para as demais. Assim todos puderam viver um pouco a experiência de cada lugar. A nossa tenda, chamada de Tenda da Conexão Mundial, centralizou as informações do mundo inteiro. O intuito é que, agora, essas sete cidades centralizem a informação e reenviem para os quatro cantos do mundo. Nós vamos mandar boletins para animar as pessoas a entrarem na Rede. Vamos nos comunicar com as diversas rádios comunitárias espalhadas pelo mundo para provocarem os seus aliados e saberem que entre tal e tal hora eles podem sintonizar o mundo livre.

 

 

Mundo livre de quê e para quem?

O mundo livre não vai ser do (Hugo) Chávez, do Lula, nem do Fidel (Castro). Vai ser o mundo livre da cidadania planetária. Eu quero levar educação e direitos humanos. Não é para rebelar o povo contra o neoliberalismo. Os empresários ficam de cabelo em pé, mas não é isso que eu quero. Eu busco um planeta mais solidário. Eu não acho impossível reverter essa lógica neoliberal, a mesma pode ser auxiliar até que as pessoas vejam que o neoliberalismo não fala por elas. Fala do mercado, mas não fala do homem.

 

 

E tecnicamente, como se dará a Rede Mundial de Comunicação Alternativa?

Você tem algumas ferramentas importantes para trabalhar, que é a TV Digital de 6 Mhz com banda larga, de média e baixa resolução, porque alta resolução é mais complicado, já que não existem tantos países explorando a alta definição. Temos o sinal por satélite, que é outra ferramenta importante, pois o sinal se integra ao IPTV (Internet Program of Television), que é o software responsável por integrar Internet com televisão.

 

 

Você tem algum exemplo para citar?

Quem conseguiu fazer isso foi o SESC. Ele tem a sua malha nacional de professores e alunos trabalhando com isso. A matriz e todos os Estados onde funcionam SESCs estão fazendo teleconferências, dando e recebendo aulas, pelo IPTV, com apoio da Embratel. Então, eles buscam sinal de satélite, transmitem e recebem em todo território nacional.

 

 

Quantas pessoas estão envolvidas diretamente com o projeto?

Esse projeto foi tocado com dez pessoas no Fórum Social Mudial.

 

 

Explique um pouco mais sobre essa ferramenta responsável por integrar Internet e televisão – o IPTV – e a importância dele para a Rede Mundial de Comunicação Alternativa.

O processo do IPTV é caro, se você usar a tecnologia americana, mas existe a tecnologia brasileira, patenteado por uma empresa nacional, que barateou bastante o preço se comparado com a importação desse serviço. Você vai a lugares na Amazônia, por exemplo, que têm IPTV. O que eu quero te dizer é que a gente tem que aproveitar essas novas tecnologias quase como num sistema de copyleft, que foi introduzido há pouco tempo na rede, onde você quebra licenças e reproduz o conteúdo para redes locais. Eu estou buscando integrar sinal com sinal de satélite, internet, através desse software, com a TV Digital e com as rádios comunitárias. E ainda quero ver se consigo fazer com celular também, porque se você tiver recepção de celular por satélite, dá para fazer a conversão e jogar para o satélite. Se você estiver no Cazaquistão e um cidadão viu algo importante acontecer, uma manifestação ou algo que interesse ao mundo livre, ele manda para a gente via Internet ou via sinal de satélite, e a gente integra na Rede e coloca na programação.

 

 

A Rede terá uma programação fixa?

Essa programação, a gente imagina, vai ser toda formulada por essa Rede inteira. As pessoas vão mandar boletins que vão chegar aos confins da Sibéria ou nas ilhas do Pacífico, se tiver recepção, obviamente. Qualquer lugar onde haja uma política nascente ou estruturada semelhante à nossa, de um mundo livre, não-hegemônico, que respeite a cidadania e dê voz aos excluídos. Por enquanto, nós temos que ter uma grade pequena de programação, em um horário determinado mundialmente, e sempre naquele horário, em cada região, a gente vai ouvir e ver a cidadania se propagar pelo mundo. No futuro, talvez a gente possa trabalhar um processo onde pequenos territórios possam emitir e receber seus próprios sinais. Vão ser, então, pequenas redes dentro da grande Rede.

 

 

E essa programação será a mesma para todos os veículos?

A gente precisa montar uma grade de programação e ela será para a rádio comunitária, para Internet e para a televisão, passando na mesma hora. O rádio vai pegar, a Internet vai pegar e a televisãozinha lá no Zimbábue também vai pegar. Todos estão convidados a participar dessa Rede de cidadania planetária. As diferenças não podem impedir a gente de conversar. Para isso a gente precisa ter um sistema que integre, porque não pode existir uma mídia só no mundo.

 

 

O que fazer para barrar um conteúdo racista, por exemplo, em uma Rede onde todos têm livre acesso?

Vamos dar o exemplo do Fórum Social Mundial. O site do Fórum, por exemplo, não costuma receber esse tipo de mensagem, porque não é essa a linguagem a que ele se propõe. Eu acho que quem procurar a Rede e tiver qualquer tipo de preconceito, vai ter vergonha de ter. Porque a gente vai formar um ambiente que, apesar das distâncias e culturas diferentes, todos têm um anseio de cidadania igual. A gente tem que respeitar as diferenças antes de tudo. A programação da Rede Mundial de Comunicação Alternativa tem que ser da promoção das diferenças.

 

 

Quando se fala no conceito de rede, lembramos logo da Internet. Qual a importância do mundo virtual para o seu projeto?

A Internet é uma fábula e a idéia de aldeia global uma falácia. Vivemos a ilusão de estarmos compartilhando um espaço de democratização. O que acontece é que a gente tem uma intermediação de veículos com interesses econômicos. É uma veiculação mediada e intermediada por um objeto. Não existe aldeia global no momento em que você não tem interação política. Ela está sempre intermediada por objetos que não são do nosso interesse e que nunca irão reproduzir a promoção da solidariedade e de consciência universal. Ela pode levantar falsas questões que permanecem atreladas aos interesses do capital e isso não nos aproxima. Você tem comunicação com gente do mundo inteiro e não promove comunicação com o seu vizinho. Então, não interessa para o mundo livre que a Internet seja o único veículo, porque o que existe (na Internet) são tentativas de tematizar, de várias maneiras diferentes, a globalização do pensamento único, e não é isso o que a gente está procurando.

 

 

O sistema capitalista, que a todo instante levanta a bandeira da democracia, não está contribuindo para uma comunicação mais justa?

Dizem que a democracia capitalista seria o mesmo que um círculo quadrado. Não existe o círculo quadrado como não pode existir democracia no capitalismo, da mesma forma que não há interação humana na Internet. A proposta da Rede é também fazer com que as pessoas entendam umas as outras de uma forma mais humana. A Internet não representa as relações humanas, nem a Humanidade. Aquilo é um mundo virtual. E o nosso mundo não é virtual, nós estamos virtualizando o nosso mundo através da Internet. Para que ele deixe de ser virtual a gente precisa de um ambiente mais humano e solidário, com informações que circulem promovendo a cidadania planetária.

 

 

Pelo visto, a Internet não será o carro-chefe da Rede

O que temos circulando hoje na Internet sobre cidadania é tão perdido que é difícil você encontrar duas pontas que conversem sobre isso ou, quando conversam, se perdem naquele oceano. Por isso que a Rede pode transformar isso, porque ela vai ser televisão, visto que a inclusão digital não existe na Ásia ou na África. No Brasil, temos a tecnologia, mas não a inclusão digital. Não interessa uma rede baseada somente na Internet. Então, vamos integrar isso com a televisão, porque se pode transformar o sistema digital em analógico e mandar para a África. A África inteira tem televisão e pode receber sinal por satélite. A dificuldade é que um Estado ditatorial, por exemplo, impeça o sinal de chegar lá embaixo, pois isto depende de uma regulamentação determinada pelo próprio Estado.

 

 

Do ponto de vista legal, a Rede já está em plenas condições de funcionar?

Eu não vou esperar que haja uma mudança de leis de radiodifusão para botar a Rede no ar. Eu não vou esperar que exista um avanço sócio-econômico em cada país para colocar a Rede no ar. Eu não vou esperar esse ritual normativo, porque senão eu vou ter que esperar a vida inteira, visto que os políticos vão estar sempre atrelados ao capital. As leis não são para o povo, nem nunca vão ser. Se eu esperar, corro o risco de nunca ver o mundo interagindo com o espírito solidário. O nível de esperança no mundo inteiro é muito baixo porque o capital financeiro está destruindo a interação entre as pessoas em todas as sociedades.

 

 

O que você propõe, então, é uma nova forma de se fazer comunicação…

Então, está na hora da gente mandar essa velha comunicação para escanteio e fazer a nossa. Eu não quero competir com os oligopólios. Eu quero, talvez, receber o êxodo de audiência que eles têm. O povo não é bobo. Muita coisa que se vê hoje na TV, não contém a referência do humano e isso é percebido pelas pessoas, como se aquilo não dissesse respeito a eles. E eles estão certo em achar isso! Muita gente procura a felicidade e depois descobre que ela estava sempre conosco. Com a solidariedade é a mesma coisa. Ou seja, esse potencial de fazer a cidadania por si mesmo, todo mundo tem, é só encontrar o estímulo. E a gente vai dar esse estímulo com a Rede Mundial de Comunicação Alternativa.

 

 

A Rede terá um mediador? Quem irá controlar o material recebido e enviado?

É lógico que vai haver um conselho – que isso não seja confundido com controle! – porque no futuro eu acho que a gente pode ter, em todo lugar do mundo, uma emissão de sinal que vá direto para a Rede, mas, por enquanto, tem que ter alguns centros, que serão as sete cidades. Você ainda tem que processar a imagem que chega. No futuro, não. Você poderá jogar o conteúdo direto na Rede. Aí, serão 24 horas de Rede Mundial, mas por enquanto não temos estrutura para isso.

 

 

Qual a meta mais ambiciosa da Rede para o exercício da democratização da informação?

A gente quer substituir o pensamento único pela consciência universal.

 

 

Vocês estão preparando alguma ação para o próximo FSM, em Belém, dia 26 de janeiro de 2009?

Estamos tentando sensibilizar as empresas envolvidas no FSM para bancarem, pelo menos, um teste piloto. Funcionaria da seguinte forma: a gente pegaria um ônibus, emplacaria uma operação de duas horas, em pelo menos três cidades. Com isso, montaríamos a Rede Mundial, conversando, enviando e recebendo imagens do mundo inteiro. Se possível a gente pode fazer também pelo celular. Como é que a gente faz: vamos mandar boletins através do site (www.riocomvida.org.br). Nós temos a idéia de todos serem hóspedes de todos. A hospitalidade é a base humana dessa Rede.

 

 

E para aquelas pessoas que não participam de grupos ou redes de cidadania e se depararem ao acaso com a Rede?

Temos a intenção de abraçar todo mundo, até mesmo aqueles que não têm idéia vão poder participar e se educar em direitos humanos e cidadania. Mas é claro que a gente vai ter que provocar, senão vai virar uma Internet.

 

 

Você acha que existe a possibilidade de boicote dos grandes oligopólios de comunicação?

Veja bem, eu não quero derrubar a comunicação convencional. Eu só acho que a gente precisa interagir entre nós por um mundo mais humano.

 

 

Alguém se interessou em levar adiante a idéia da Rede?

Eu conversei com o Cândido Grzyowski, do IBASE, que inicialmente comprou a idéia, e com gente do Comitê Pró-Amazônico. Eles se interessaram muito em me ajudar para que a gente amplie isso em Belém, na próxima edição do FSM. Temos que aproveitar essa data, quando teremos pessoas do mundo inteiro presentes, além da interação com as diversas cidades que abraçam o FSM mundo afora.

 

 

E os softwares livres entram na filosofia da Rede?

O software livre, como os pesquisadores de comunicação alternativa chamam, ainda é muito lento para se trabalhar, nós precisamos de alta tecnologia, que os grandes oligopólios detêm. Como diz o sociólogo esloveno Slavoj Zizek, a alternativa para a comunicação contra-hegemônica é aproveitar o capitalismo em outras direções. O capitalismo criou as melhores tecnologias e continuará criando, mas não podemos considerar que isso credencie a vitória do egoísmo e da competitividade. O capitalismo é um produto da Humanidade, ele está inserido nela, assim como o neoliberalismo. Portanto, são conquistas da Humanidade e devem ser usufruídas pelo povo. Temos que estimular o diálogo para que os bens produzidos por nós sejam também acessíveis a todos nós. E se, por acaso, houver boicote por parte dos detentores do poder terá servido para fazer a discussão sair da sala de aula, das palestras e dos seminários. Muitos pesquisadores analisam com certo cinismo a minha proposta.

 

 

No entanto, o tema está em constante estudo por eles…

Esse conceito todo da Rede Mundial já esteve nos estudos de pessoas muito respeitadas como Milton Santos (1926-2001), Carlos Walter Porto Gonçalves, Boaventura Santos, Dênis de Moraes… Muito já se foi falado sobre comunicação alternativa, chegou a hora de efetivar.

 

 

Apesar dos percalços, o saldo tem sido positivo?

Eu conversei com o vice-ministro das Relações Exteriores da Venezuela para ele levar essa proposta para o presidente (Hugo) Chávez, já que ele tem um projeto de rede de rádios comunitárias. Cuba também está montando uma rede de rádios comunitárias. Podemos nos fortalecer, uma rede dando apoio à outra, e mostrar que funciona. Pela primeira vez, no FSM, todo mundo participou, no mesmo dia, seja com evento, seja com uma palestra, com uma passeata ou uma manifestação qualquer, em 72 países, em diversas cidades de cada país. Ou seja, foi um dia de disposição para a luta. A luta de cada um, com as suas ferramentas próprias e locais, de estimular o seu vizinho por um outro mundo possível. É muito importante frisar que neste dia aconteceu das pessoas baterem na porta do vizinho e chamá-lo para participarem juntos do ato de sua cidade. No dia 26 de janeiro, aqui no Rio de Janeiro, nós encorajávamos cada pessoa a convocar o seu vizinho pessoalmente e isso é extremamente importante. Por isso, eu acho que essa Rede não pode ser unicamente audiovisual, ela tem que entrar em um processo de comunicação intergrupal e interpessoal. Só assim as mensagens dos movimentos sociais podem correr muito mais rápidas e o resultado se tornar palpável quando menos se esperar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escrito por Eduardo Pacheco

26/05/2008 em 7:31 pm

Publicado em COMUNICAÇÃO

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