Ricardo Canese deve assumir negociações de Itaipu

Ricardo Canese
O engenheiro Ricardo Canese é especialista em hidroeletricidade e uma das principais lideranças do Movimento Popular Tekojoja, que ajudou Fernando Lugo a se eleger como presidente do Paraguai e encerrar 61 anos de centralismo político do Partido Colorado. Canese é tido como uma das pessoas mais bem preparadas para discutir com o Brasil a questão de Itaipu. Na entrevista abaixo ele fala sobre política, Mercosul e integração energética.
Setores progressistas da sociedade latino-americana comemoraram a vitória de Fernando Lugo para a presidência do Paraguai. Dentro de qual contexto se insere essa vitória?
É uma mudança depois de mais de 60 anos de governos autoritários, corruptos e excessivamente conservadores, passando pelas mãos de oligarquias conservadoras, como também por uma ditadura que durou 34 anos. A Aliança Patriótica para a Mudança (coligação de partidos e movimentos sociais que apóiam Fernando Lugo), conseguiu importantes vitórias, no entanto há muito o que se fazer para inverter o modelo político sustentado pelas oligarquias paraguaias. Mas, o dia 20 de abril pode, sim, ser considerado uma virada histórica, principalmente para os partidos políticos e movimentos da esquerda paraguaia. Foi importante para presenciarmos o fim de um modelo oligárquico que não se sustenta mais, que não possui aprovação popular e que não garante melhorias para as pessoas. O mais importante é que Fernando Lugo é um líder muito querido no país e, neste momento, ele está aglutinando forças junto com a sociedade para realizar as mudanças necessárias para o país.
O Partido Colorado tem feito algum tipo de manobra para atrapalhar o bom clima do país? Que tipos de dificuldades o novo governo pode encontrar para governar?
Não nego que existam dificuldades, mas pode-se dizer que já passamos da fase de maior preocupação, que foi durante as eleições, e agora estamos vivendo um período de mais tranqüilidade no país. No momento, os movimentos populares e os setores democráticos estão em alta e o Partido Colorado está bastante dividido. Isso, de certa forma, impede que este partido dê demonstrações de força. Nós acreditamos que seguiremos o caminho correto para realizar as mudanças sociais que tanto precisamos. Estamos muito bem alinhados com os movimentos sociais, os sindicatos e partidos de esquerda, e confiantes nas políticas de cunho social que pretendem abraçar a todos os movimentos populares.
Com a retomada de governos progressistas na América do Sul, fica impossível não estabelecer uma relação entre Lugo e Evo Morales ou Hugo Chávez. Você vê mais semelhanças ou mais diferenças entre essas lideranças políticas?
Eu vejo mais diferença. O governo de Fernando Lugo será mais parecido com o governo Lula, no Brasil, ou de Tabaré Vasquez, no Uruguai, por causa da composição das forças políticas que governarão com ele. Nem todos são partidos de esquerda. O Partido Liberal, por exemplo, está coligado com o atual governo. Para ter governabilidade, o governo Fernando Lugo fez alianças com distintos setores que não são de esquerda, então, dificilmente, vamos conseguir avançar com um programa muito radical, porque não temos a maioria no Congresso. Mas, garantimos que será um governo democrático, que vai institucionalizar o país, vai combater a corrupção e, sobretudo, ter uma sensibilidade social que permitirá aos movimentos sociais crescerem para, então, possibilitar uma mudança mais profunda que não sairá do seio de um partido de esquerda, mas das demandas desses movimentos. Sem dúvida será um governo de identidade nacional com orientação social.
Em relação ao Mercosul, Lugo levantou a bandeira de um Paraguai mais atuante. De que forma o novo governo conseguirá elevar o país à igualdade com demais membros do bloco?
A igualdade, neste caso, seria algo parecido com respeito e reconhecimento de que está nascendo um governo digno. Claro que o Paraguai, por ser um país menor, que produz menos e tem menos população, não seria, ainda, capaz de competir economicamente com esses países. Mas, a Europa nos dá bons exemplos de políticas de diminuição das assimetrias entre os países da União Européia, e o Mercosul deve desenvolver mecanismos que também retrocedam as disparidades. Se não for assim, o Mercosul continuará tendo muita resistência por parte dos paraguaios. Os últimos governos não conduziram o país ao patamar que deveria alcançar dentro do bloco. São três as nossas dificuldades: somos o menor país, não temos uma saída para o mar e possuímos um índice de pobreza enorme. Somos mais parecidos com o nordeste brasileiro do que com o Uruguai, que possui uma renda per capita bem maior do que a nossa. No Mercosul, temos que começar a resolver essas assimetrias, que não são somente as diferenças entre nações, mas as disparidades dentro de cada país. A questão das dimensões de cada país também precisa ser analisada e a falta de uma saída pro mar, questão que compartilhamos com a Bolívia, se configura em um grande entrave para o nosso desenvolvimento. A questão da soberania energética é crucial para o Paraguai.
No Brasil, a grande mídia coloca o tema da hidrelétrica de Itaipu como um objeto de disputa entre os governos dos dois países. Como essa questão está sendo tratada no Paraguai e de que forma esse debate está sendo trazido para o Brasil?
Durante um Fórum, em São Paulo, que reuniu partidos políticos de esquerda e movimentos sociais, fomos amplamente apoiados. São diversas entidades demonstrando solidariedade com a causa paraguaia. A partir de 15 de agosto, data da posse de Lugo, iniciaremos conversas oficiais entre governos. Queremos tratar deste assunto com o máximo de cautela que a questão merece, não queremos que a questão de Itaipu se torne um motivo de discórdia entre os dois países ou se configure em um escândalo com repercussão internacional. No dia 1º de abril, um dia antes das eleições no Paraguai, nós fomos recebidos pelo presidente Lula, que foi bastante compreensivo com o tema ao dizer que trataríamos a questão de Itaipu com grande respeito e prioridade. Ele mesmo disse, na ocasião, que não pretende ver o Brasil crescendo às custas da pobreza de seus vizinhos. Temos que buscar um trato que seja capaz de superar um tratado que remete às ditaduras militares. Nós acreditamos em uma integração energética dentro do continente, somos os únicos com excedente de energia elétrica e podemos crescer com isso. O Chile, por exemplo, precisa de energia elétrica. Temos que tomar como exemplo a Bolívia, que possui excedente de gás e tem implantado medidas de valorização do seu potencial gasifico. Com um bom manejo entre os países, podemos sair todos fortalecidos com essa integração, não só o Paraguai. Eu te dou um exemplo: no ano passado, a Argentina perdeu quatro bilhões de dólares pela falta de energia elétrica. Com isso, tiveram que parar a indústria, ocasionando grandes perdas. Se tivéssemos uma interconexão elétrica, a Argentina poderia ter evitado uma crise neste sentido. Então, temos que criar uma proposta onde todos ganhem. Assim, poderemos obter o reconhecimento de que também estamos contribuindo para reduzir os custos energéticos das nações vizinhas. Querer alcançar a nossa soberania energética não é um desejo egoísta do Paraguai, mas uma questão de necessidade e sobrevivência.
O senhor não gostou do nome escolhido pelo novo governo para a direção da hidrelétrica de Itaipu. O que lhe incomoda com esta decisão?
Não foi uma objeção só minha, mas de todo o Movimento Popular Tekojoja, dos sindicatos elétricos, das frentes sociais populares e partidos de esquerda. Nós criticamos a nomeação de uma pessoa que não tem nenhuma experiência no campo energético, que nunca mostrou interesse com esse tema. Temos muitos outros nomes de pessoas comprometidas com questões energéticas, que dedicaram anos de suas vidas ao tema. Como companheiros que somos de Fernando Lugo, fizemos esta crítica. Mas foi uma decisão soberana do governo paraguaio, nós já felicitamos a Carlos Mateo Balmelli e estamos prontos para ajudar. Não o critico por ele ser membro do Partido Liberal e eu representar outro partido, tanto que falo abertamente que existem pessoas extremamente competentes neste partido para tratar de questões energéticas. Mas, estou certo que a opção por esse nome se deu mais pela sua importância como dirigente no seio do Partido Liberal do que pela sua experiência no campo energético.
Sabe-se que muitos setores da sociedade paraguaia querem tê-lo como membro desse novo governo. Existe essa possibilidade?
Eu fui eleito para o Parlamento do Mercosul, com maior número de votos dentre os candidatos de esquerda do Paraguai. Sei que nesta função poderei ajudar o governo Lugo dentro do bloco. Nesse sentido, se Fernando Lugo me convidasse para assumir um cargo em seu governo, isto implicaria em renunciar a meu cargo de parlamentar no Mercosul. Mas, o presidente eleito me ofereceu coordenar uma equipe de renegociação de Itaipu e acho bastante razoável, pois não precisarei renunciar ao meu cargo atual dentro do bloco regional e poderei contribuir com a minha experiência para a questão de Itaipu.
“A gente quer substituir o pensamento único pela consciência universal”
O poeta, jornalista e ativista dos direitos humanos Bruno Cattoni nasceu no Rio de Janeiro, em 1957, e carrega consigo a angústia daqueles que não navegam na onda de conformismo dos nossos dias. Sonhador, busca um mundo mais justo e solidário; realista, sabe que o caminho para alcança-lo é árduo. Experiente, traz consigo a bagagem de décadas de jornalismo para transformar seu sonho em realidade. Acompanhe, abaixo, a entrevista com o idealizador da Rede Mundial de Comunicação Alternativa, um grandioso projeto de comunicação que promete levar cidadania e interação humana sem interesses econômicos, calcado no ideal de mundo livre.
Explique, em linhas gerais, o projeto da Rede Mundial de Comunicação Alternativa.
Quando a gente vai discutir a Rede Mundial de Comunicação Alternativa ou qualquer outro mecanismo que entre numa linha de pensamento mais arrojada, de combate aos grandes oligopólios de comunicação, de certa maneira, não só os empresários se arrepiam com isso, mas os próprios acadêmicos, que estão estudando isso há muito tempo, de fazer uma globalização contra-hegemônica através da globalização, e acham que é simplista demais o que eu estou propondo. Porque, se os comunicólogos, os professores e os pesquisadores estão há anos, no mundo inteiro, pesquisando isso, como é que chega um jornalista e tenta implantar alguma coisa que eles nem imaginam…
Mas o fato é que eu consegui mostrar no Fórum Social Mundial (FSM) que é possível, pelo menos, o mecanismo de ida e vinda da informação – a interação – e, depois disso, basta acrescentar outras ferramentas para amplificar esse processo.
Na prática, como se dá esse processo?
Existe uma unidade móvel de jornalismo. É um ônibus que você pode alugar com todos os equipamentos de televisão, ele faz o processo de integração com o sinal do satélite e a interface com a Internet para que o sinal que ele está recebendo e emitindo também vá para o mundo virtual. Eu fiz esse orçamento, ficou caro demais. Esse ônibus pode existir em sete cidades. Um em cada costa dos Estados Unidos, dois na Europa, dois na América Latina, um na Índia e um na África do Sul Assim, a gente resolve os centros da Rede, que serão sete cidades. São essas cidades que vão custear os gastos com o ônibus: os próprios governos, a sociedade civil ou as empresas.
A Rede Mundial já foi testada?
A gente usou no FSM a tecnologia de envio e recepção de áudio e vídeo. Fizemos uma estação âncora daqui de TV e web e conversamos com 42 cidades. Ou seja, todas essas cidades conversaram entre si durante o dia de ação do FSM. Cada uma enviava imagens para nós e a gente repassava para as demais. Assim todos puderam viver um pouco a experiência de cada lugar. A nossa tenda, chamada de Tenda da Conexão Mundial, centralizou as informações do mundo inteiro. O intuito é que, agora, essas sete cidades centralizem a informação e reenviem para os quatro cantos do mundo. Nós vamos mandar boletins para animar as pessoas a entrarem na Rede. Vamos nos comunicar com as diversas rádios comunitárias espalhadas pelo mundo para provocarem os seus aliados e saberem que entre tal e tal hora eles podem sintonizar o mundo livre.
Mundo livre de quê e para quem?
O mundo livre não vai ser do (Hugo) Chávez, do Lula, nem do Fidel (Castro). Vai ser o mundo livre da cidadania planetária. Eu quero levar educação e direitos humanos. Não é para rebelar o povo contra o neoliberalismo. Os empresários ficam de cabelo em pé, mas não é isso que eu quero. Eu busco um planeta mais solidário. Eu não acho impossível reverter essa lógica neoliberal, a mesma pode ser auxiliar até que as pessoas vejam que o neoliberalismo não fala por elas. Fala do mercado, mas não fala do homem.
E tecnicamente, como se dará a Rede Mundial de Comunicação Alternativa?
Você tem algumas ferramentas importantes para trabalhar, que é a TV Digital de 6 Mhz com banda larga, de média e baixa resolução, porque alta resolução é mais complicado, já que não existem tantos países explorando a alta definição. Temos o sinal por satélite, que é outra ferramenta importante, pois o sinal se integra ao IPTV (Internet Program of Television), que é o software responsável por integrar Internet com televisão.
Você tem algum exemplo para citar?
Quem conseguiu fazer isso foi o SESC. Ele tem a sua malha nacional de professores e alunos trabalhando com isso. A matriz e todos os Estados onde funcionam SESCs estão fazendo teleconferências, dando e recebendo aulas, pelo IPTV, com apoio da Embratel. Então, eles buscam sinal de satélite, transmitem e recebem em todo território nacional.
Quantas pessoas estão envolvidas diretamente com o projeto?
Esse projeto foi tocado com dez pessoas no Fórum Social Mudial.
Explique um pouco mais sobre essa ferramenta responsável por integrar Internet e televisão – o IPTV – e a importância dele para a Rede Mundial de Comunicação Alternativa.
O processo do IPTV é caro, se você usar a tecnologia americana, mas existe a tecnologia brasileira, patenteado por uma empresa nacional, que barateou bastante o preço se comparado com a importação desse serviço. Você vai a lugares na Amazônia, por exemplo, que têm IPTV. O que eu quero te dizer é que a gente tem que aproveitar essas novas tecnologias quase como num sistema de copyleft, que foi introduzido há pouco tempo na rede, onde você quebra licenças e reproduz o conteúdo para redes locais. Eu estou buscando integrar sinal com sinal de satélite, internet, através desse software, com a TV Digital e com as rádios comunitárias. E ainda quero ver se consigo fazer com celular também, porque se você tiver recepção de celular por satélite, dá para fazer a conversão e jogar para o satélite. Se você estiver no Cazaquistão e um cidadão viu algo importante acontecer, uma manifestação ou algo que interesse ao mundo livre, ele manda para a gente via Internet ou via sinal de satélite, e a gente integra na Rede e coloca na programação.
A Rede terá uma programação fixa?
Essa programação, a gente imagina, vai ser toda formulada por essa Rede inteira. As pessoas vão mandar boletins que vão chegar aos confins da Sibéria ou nas ilhas do Pacífico, se tiver recepção, obviamente. Qualquer lugar onde haja uma política nascente ou estruturada semelhante à nossa, de um mundo livre, não-hegemônico, que respeite a cidadania e dê voz aos excluídos. Por enquanto, nós temos que ter uma grade pequena de programação, em um horário determinado mundialmente, e sempre naquele horário, em cada região, a gente vai ouvir e ver a cidadania se propagar pelo mundo. No futuro, talvez a gente possa trabalhar um processo onde pequenos territórios possam emitir e receber seus próprios sinais. Vão ser, então, pequenas redes dentro da grande Rede.
E essa programação será a mesma para todos os veículos?
A gente precisa montar uma grade de programação e ela será para a rádio comunitária, para Internet e para a televisão, passando na mesma hora. O rádio vai pegar, a Internet vai pegar e a televisãozinha lá no Zimbábue também vai pegar. Todos estão convidados a participar dessa Rede de cidadania planetária. As diferenças não podem impedir a gente de conversar. Para isso a gente precisa ter um sistema que integre, porque não pode existir uma mídia só no mundo.
O que fazer para barrar um conteúdo racista, por exemplo, em uma Rede onde todos têm livre acesso?
Vamos dar o exemplo do Fórum Social Mundial. O site do Fórum, por exemplo, não costuma receber esse tipo de mensagem, porque não é essa a linguagem a que ele se propõe. Eu acho que quem procurar a Rede e tiver qualquer tipo de preconceito, vai ter vergonha de ter. Porque a gente vai formar um ambiente que, apesar das distâncias e culturas diferentes, todos têm um anseio de cidadania igual. A gente tem que respeitar as diferenças antes de tudo. A programação da Rede Mundial de Comunicação Alternativa tem que ser da promoção das diferenças.
Quando se fala no conceito de rede, lembramos logo da Internet. Qual a importância do mundo virtual para o seu projeto?
A Internet é uma fábula e a idéia de aldeia global uma falácia. Vivemos a ilusão de estarmos compartilhando um espaço de democratização. O que acontece é que a gente tem uma intermediação de veículos com interesses econômicos. É uma veiculação mediada e intermediada por um objeto. Não existe aldeia global no momento em que você não tem interação política. Ela está sempre intermediada por objetos que não são do nosso interesse e que nunca irão reproduzir a promoção da solidariedade e de consciência universal. Ela pode levantar falsas questões que permanecem atreladas aos interesses do capital e isso não nos aproxima. Você tem comunicação com gente do mundo inteiro e não promove comunicação com o seu vizinho. Então, não interessa para o mundo livre que a Internet seja o único veículo, porque o que existe (na Internet) são tentativas de tematizar, de várias maneiras diferentes, a globalização do pensamento único, e não é isso o que a gente está procurando.
O sistema capitalista, que a todo instante levanta a bandeira da democracia, não está contribuindo para uma comunicação mais justa?
Dizem que a democracia capitalista seria o mesmo que um círculo quadrado. Não existe o círculo quadrado como não pode existir democracia no capitalismo, da mesma forma que não há interação humana na Internet. A proposta da Rede é também fazer com que as pessoas entendam umas as outras de uma forma mais humana. A Internet não representa as relações humanas, nem a Humanidade. Aquilo é um mundo virtual. E o nosso mundo não é virtual, nós estamos virtualizando o nosso mundo através da Internet. Para que ele deixe de ser virtual a gente precisa de um ambiente mais humano e solidário, com informações que circulem promovendo a cidadania planetária.
Pelo visto, a Internet não será o carro-chefe da Rede…
O que temos circulando hoje na Internet sobre cidadania é tão perdido que é difícil você encontrar duas pontas que conversem sobre isso ou, quando conversam, se perdem naquele oceano. Por isso que a Rede pode transformar isso, porque ela vai ser televisão, visto que a inclusão digital não existe na Ásia ou na África. No Brasil, temos a tecnologia, mas não a inclusão digital. Não interessa uma rede baseada somente na Internet. Então, vamos integrar isso com a televisão, porque se pode transformar o sistema digital em analógico e mandar para a África. A África inteira tem televisão e pode receber sinal por satélite. A dificuldade é que um Estado ditatorial, por exemplo, impeça o sinal de chegar lá embaixo, pois isto depende de uma regulamentação determinada pelo próprio Estado.
Do ponto de vista legal, a Rede já está em plenas condições de funcionar?
Eu não vou esperar que haja uma mudança de leis de radiodifusão para botar a Rede no ar. Eu não vou esperar que exista um avanço sócio-econômico em cada país para colocar a Rede no ar. Eu não vou esperar esse ritual normativo, porque senão eu vou ter que esperar a vida inteira, visto que os políticos vão estar sempre atrelados ao capital. As leis não são para o povo, nem nunca vão ser. Se eu esperar, corro o risco de nunca ver o mundo interagindo com o espírito solidário. O nível de esperança no mundo inteiro é muito baixo porque o capital financeiro está destruindo a interação entre as pessoas em todas as sociedades.
O que você propõe, então, é uma nova forma de se fazer comunicação…
Então, está na hora da gente mandar essa velha comunicação para escanteio e fazer a nossa. Eu não quero competir com os oligopólios. Eu quero, talvez, receber o êxodo de audiência que eles têm. O povo não é bobo. Muita coisa que se vê hoje na TV, não contém a referência do humano e isso é percebido pelas pessoas, como se aquilo não dissesse respeito a eles. E eles estão certo em achar isso! Muita gente procura a felicidade e depois descobre que ela estava sempre conosco. Com a solidariedade é a mesma coisa. Ou seja, esse potencial de fazer a cidadania por si mesmo, todo mundo tem, é só encontrar o estímulo. E a gente vai dar esse estímulo com a Rede Mundial de Comunicação Alternativa.
A Rede terá um mediador? Quem irá controlar o material recebido e enviado?
É lógico que vai haver um conselho – que isso não seja confundido com controle! – porque no futuro eu acho que a gente pode ter, em todo lugar do mundo, uma emissão de sinal que vá direto para a Rede, mas, por enquanto, tem que ter alguns centros, que serão as sete cidades. Você ainda tem que processar a imagem que chega. No futuro, não. Você poderá jogar o conteúdo direto na Rede. Aí, serão 24 horas de Rede Mundial, mas por enquanto não temos estrutura para isso.
Qual a meta mais ambiciosa da Rede para o exercício da democratização da informação?
A gente quer substituir o pensamento único pela consciência universal.
Vocês estão preparando alguma ação para o próximo FSM, em Belém, dia 26 de janeiro de 2009?
Estamos tentando sensibilizar as empresas envolvidas no FSM para bancarem, pelo menos, um teste piloto. Funcionaria da seguinte forma: a gente pegaria um ônibus, emplacaria uma operação de duas horas, em pelo menos três cidades. Com isso, montaríamos a Rede Mundial, conversando, enviando e recebendo imagens do mundo inteiro. Se possível a gente pode fazer também pelo celular. Como é que a gente faz: vamos mandar boletins através do site (www.riocomvida.org.br). Nós temos a idéia de todos serem hóspedes de todos. A hospitalidade é a base humana dessa Rede.
E para aquelas pessoas que não participam de grupos ou redes de cidadania e se depararem ao acaso com a Rede?
Temos a intenção de abraçar todo mundo, até mesmo aqueles que não têm idéia vão poder participar e se educar em direitos humanos e cidadania. Mas é claro que a gente vai ter que provocar, senão vai virar uma Internet.
Você acha que existe a possibilidade de boicote dos grandes oligopólios de comunicação?
Veja bem, eu não quero derrubar a comunicação convencional. Eu só acho que a gente precisa interagir entre nós por um mundo mais humano.
Alguém se interessou em levar adiante a idéia da Rede?
Eu conversei com o Cândido Grzyowski, do IBASE, que inicialmente comprou a idéia, e com gente do Comitê Pró-Amazônico. Eles se interessaram muito em me ajudar para que a gente amplie isso em Belém, na próxima edição do FSM. Temos que aproveitar essa data, quando teremos pessoas do mundo inteiro presentes, além da interação com as diversas cidades que abraçam o FSM mundo afora.
E os softwares livres entram na filosofia da Rede?
O software livre, como os pesquisadores de comunicação alternativa chamam, ainda é muito lento para se trabalhar, nós precisamos de alta tecnologia, que os grandes oligopólios detêm. Como diz o sociólogo esloveno Slavoj Zizek, a alternativa para a comunicação contra-hegemônica é aproveitar o capitalismo em outras direções. O capitalismo criou as melhores tecnologias e continuará criando, mas não podemos considerar que isso credencie a vitória do egoísmo e da competitividade. O capitalismo é um produto da Humanidade, ele está inserido nela, assim como o neoliberalismo. Portanto, são conquistas da Humanidade e devem ser usufruídas pelo povo. Temos que estimular o diálogo para que os bens produzidos por nós sejam também acessíveis a todos nós. E se, por acaso, houver boicote por parte dos detentores do poder terá servido para fazer a discussão sair da sala de aula, das palestras e dos seminários. Muitos pesquisadores analisam com certo cinismo a minha proposta.
No entanto, o tema está em constante estudo por eles…
Esse conceito todo da Rede Mundial já esteve nos estudos de pessoas muito respeitadas como Milton Santos (1926-2001), Carlos Walter Porto Gonçalves, Boaventura Santos, Dênis de Moraes… Muito já se foi falado sobre comunicação alternativa, chegou a hora de efetivar.
Apesar dos percalços, o saldo tem sido positivo?
Eu conversei com o vice-ministro das Relações Exteriores da Venezuela para ele levar essa proposta para o presidente (Hugo) Chávez, já que ele tem um projeto de rede de rádios comunitárias. Cuba também está montando uma rede de rádios comunitárias. Podemos nos fortalecer, uma rede dando apoio à outra, e mostrar que funciona. Pela primeira vez, no FSM, todo mundo participou, no mesmo dia, seja com evento, seja com uma palestra, com uma passeata ou uma manifestação qualquer, em 72 países, em diversas cidades de cada país. Ou seja, foi um dia de disposição para a luta. A luta de cada um, com as suas ferramentas próprias e locais, de estimular o seu vizinho por um outro mundo possível. É muito importante frisar que neste dia aconteceu das pessoas baterem na porta do vizinho e chamá-lo para participarem juntos do ato de sua cidade. No dia 26 de janeiro, aqui no Rio de Janeiro, nós encorajávamos cada pessoa a convocar o seu vizinho pessoalmente e isso é extremamente importante. Por isso, eu acho que essa Rede não pode ser unicamente audiovisual, ela tem que entrar em um processo de comunicação intergrupal e interpessoal. Só assim as mensagens dos movimentos sociais podem correr muito mais rápidas e o resultado se tornar palpável quando menos se esperar.

